“Não fora por um lapso no tempo de três anos, estaríamos a três dias

de uma grande comemoração”.

 

Entretanto, não há festa, nem choro…

Há velas ao vento e cinzas ao mar…

E há uma enorme gratidão a Deus por ter formado e conhecido a mente (antes mesmo de seu nascimento em 31 de julho), separado e enviado especialmente para nós, há 80 anos atrás, um pai tão amoroso e compreensivo; fiel à Deus, servo de Cristo, obediente aos pais, leal aos amigos, amigo dos irmãos, profissional de caráter, honrado, homenageado e condecorado pela Marinha do Brasil, “(…) talvez por ser filho de Dona Aurora. É a “Medalha do Mérito Naval, de cuja ordem passo a ser Cavaleiro.” (Brasília, 11/DEZ./1976) e orgulhoso de seu pai, com quem sempre estava extremamente preocupado com relação à saúde, às necessidades e tristezas de (Willie, como era carinhosamente chamado em casa):

“ – Fico pensando no papai numa hora destas.       Ele deve estar transtornado.  Se alguma coisa aconteceu a ele… vão ver.” (Nov./1955)

“ – (…) juntamente com um recado confuso de que papai estava melhor, mas parece que estava doente (…) Sua carta me deixou boiando na extratosfera e super preocupado.  Quis voltar a dormir mas fiquei na cama rolando de um lado para o outro.              O pessimismo que me assaltou quando saímos de Campinas pela última vez voltou. Fiz força para me convencer mas nada!  Senti uma coisa que agora enquanto lhe escrevo pode ser bem verdade* e você já deve desconfiar.  Enfim Deus sabe o que faz. (…) Estava pensando se por acaso ele chegou a ler a minha carta de Fortaleza.”  (Belém, 30/ X / 56)

*William faleceu no dia 1° de novembro de 1956.

 

 

Nascido no final da década de 20, na cidade de Campinas     (interior do estado de São Paulo) este “Jequitibá” era o sexto filho (dentre sete) de uma família de classe média (cuja renda mensal era equivalente ao salário de um lixeiro) formada pelo pai (nascido em Cantagalo/RJ) e pela mãe (nascida em Sorocaba/SP).

  • O pai, William, também era o sexto (e último filho do primeiro casamento) e ficara órfão de mãe (descendência germânica) com cerca de dois anos de idade, sendo cuidado pela madrasta, amigos da família e os irmãos mais velhos. Seu primeiro emprego fora trabalhando num navio que ia à Argentina. Aguardando um navio que seguiria rumo à Inglaterra, assistiu ao Rev. Álvaro Reis. Apresentou-se como candidato ao Ministério Pastoral, foi enviado ao Instituto Gammon, em Lavras; preparou-se, ingressou no (então) Seminário Teológico Presbiteriano, em Campinas. Formou-se como pastor protestante por vocação, chamado e opção; estudou várias línguas: Português, Inglês, Francês, Espanhol, Latim, Grego e Hebraico; foi autor da primeira Gramática de Hebraico publicada no Brasil, Professor e Reitor do (atual) Seminário Presbiteriano do Sul.
  • A mãe, Aurora, também ficara órfã de mãe por volta de 10 anos e, por ser a mais velha, ficou com a responsabilidade de cuidar dos irmãos menores. Logo foi enviada para estudar em Itapetininga/SP, uma cidade próxima, onde sempre obtinha a maior nota nas provas, sendo a primeira aluna da turma e onde concluiu o Curso Normal. Retornou à Sorocaba onde participava de um grupo de estudos preparatório para ingressar na Faculdade de Medicina. Percebeu que o seu pai precisava de ajuda financeira, decidiu lecionar para ajudar nas despesas da casa e cuidados com os irmãos do segundo casamento.

Do mesmo grupo de estudos, todos os demais ingressaram na       Faculdade de Medicina de São Paulo, entre eles um renomado médico Dr. Hermas Braga, irmão de Erasmo Braga.

A primeira referência ao discurso oral do      foi relatada por suas irmãs:

“ – O que você quer ser quando crescer?”

“ – Pai de gente!”

Muitos anos depois, alcançou seu objetivo: casou-se e teve cinco filhos. Para eles, deixou registrado, entre várias cartas, o seguinte:

            “ – Beijos para as crianças. Não bata neles. Eles já se batem mutuamente. Deixe-os mal educados. Diga a eles que não apanham porque o papai pediu, mas que o papai espera que eles se tornem gente e não bichos.” (L.R.Kerr / a bordo do NE Custódio de Melo – Nov./1961).

A prioridade de seus pais sempre foi a educação e formação dos filhos; o estudo e cumprimento da Palavra de Deus;o reconhecimento de Sua soberania; a certeza de que Suas promessas sempre se cumpriam; a  leitura de livros e revistas importadas; aulas de piano e partituras, sendo a música o entretenimento que vinha sempre em primeiro lugar. A opção levou ao sucesso profissional de todos os sete filhos: três filhos engenheiros formados na década de 40; três filhas professoras, diplomadas em Música (piano, canto, regência Coral e órgão). Todos oriundos de Escola Pública e, posteriormente, monitores no Internato do Instituto Mackenzie na cidade de São Paulo, para cobrir as despesas com a educação. 

Esta mesma prioridade estabeleceu para sua descendência.

O menino crescia e demonstrava uma característica muito comum e inerente aos familiares: o sentimento (característica predominantemente feminina), diferenciando-se do lado predominantemente masculino preconizado por Jung.

 

Relatou aos filhos, mais tarde, que durante a encenação de uma peça por ocasião do Natal:

“ – meu papel restringia-se a cobrir com um manto uma menininha pobre e desamparada que dormia ao relento”,

Não havia quase fala alguma na cena que era acompanhada por músicas natalinas.  Sua principal linguagem seria o gesto de cobrir, proteger, cuidar da menininha órfã que encontrara encolhida, dormindo no chão, para a qual dizia:

         “ – Está aqui a minha capinha para aquece-la.”

Seu único “traje” era o pano que seria utilizado como manto.  Um papel irrelevante. A peça começou e ninguém se lembrou de entregar a capa ao menino. O que fazer diante do problema?  Como solucionar a ausência do “manto”? Seu pensamento entra em cena e, conscientemente, caminha pelo palco carregando uma “capa invisível que serviria como manto”.

O pensamento uniu-se à fantasia e causou um efeito na platéia inesperado: a emoção transbordava dos olhos dos espectadores como jamais poderiam imaginar. Seu desempenho, anteriormente considerado irrelevante, passou a ser o grande momento da história e jamais esquecido, sendo favorecido pela comunicação através de mensagem visualmente transmitida.

Já mais velho, um adolescente, quando os amigos chamavam-no para brincar, jogar bola ou basquete, muitas vezes recusava-se a ir com a justificativa de ser o seu dia de lavar a louça e ajudar sua mãe nas tarefas domésticas; “-Não porque gostasse de lavar louça, mas porque gostava da mãe”, respondia o rapaz.

Este “Jequitibá”, que em sua infância foi aluno do Grupo Escolar Francisco Glicério e, na adolescência foi aluno do Colégio Estadual Culto à Ciência, tinha por hábito criar coelhos, codornas, galinhas e envolver-se com pomar, hortas e jardins. Já parecia ter feito sua opção de carreira no final do segundo ano científico (correspondente ao Ensino Médio atual) – Engenharia Agronômica. 

Neste momento parece que Platão [428? -348 a.C], cruzou o seu destino e ele percorreu um caminho semelhante a um dos cativos, no segundo episódio de “A Alegoria da Cavernainscrita num dos textos mais famosos de Platão, isto é, o Livro VII in ‘A República’.

“Podemos dividir as passagens da referida alegoria em quatro episódios:

. Primeiro episódio = como numa morada subterrânea, em forma de caverna, os prisioneiros estão acorrentados, imobilizados, sem poder mover a cabeça; eles apenas observam as sombras das marionetes que desfilam em uma parede. Os prisioneiros as tomam por seres verdadeiros e crêem ouvi-las, quando, na verdade (isto é, na realidade), ouvem as vozes de carregadores ou de titiriteiros.
 . Segundo episódio = quando um dos cativos é libertado e obrigado, de súbito, a se erguer, andar e olhar para a luz; deslumbrado pela luz do fogo, ele é forçado a olhar as marionetes, que passam por cima do muro.

 

 

 

Sua única realidade, até então, limitava-se às terras do interior do estado de São Paulo. 

 
 . Terceiro episódio = daí o arrastam à força pelo áspero e íngreme aclive, e não o soltam antes de lançá-lo para a luz do verdadeiro fogo, isto é, o Sol; o cativo é, a princípio, cegado pela luz, tornando-se incapaz de observar o que, agora, são os seres reais”. Contudo, aos poucos, ele vai se adaptando. Contempla as sombras e os reflexos, depois os próprios seres que projetam essas sombras. Ele se encontra no Mundo das Idéias.

 

 

E no quarto episódio. No final do ano de 1947, ainda no segundo ano do científico, o      acompanhou sua irmã mais nova que iria participar de um torneio de xadrez em Santos e foi visitar um de seus tios que lá morava; foi a primeira vez que visitava uma cidade litorânea:

 
 . Quarto episódio: seu olhar eleva-se em direção ao Sol. Ele conclui que esse é que produz a vida, as estações e os anos, e governa, também, o plano visível, e o último é  tudo aquilo que antes via, de algum modo, de maneira distorcida, quando se encontrava sentado lá no fundo da caverna.

 

Seu olhar não foi para o alto, em direção ao Sol; mas olhou para frente e sua vista alcançou o mar e o horizonte. E é a linha do horizonte que liga, “une” o concreto (terra e mar) ao espiritual (céu).  É a linha do horizonte referência de esperança; e, ao mesmo tempo, de inatingível para muitos. Contudo, persiste como marco de que ainda não chegamos ao final e nos permite prever, idealizar, sonhar, acreditar, duvidar, mas com uma única certeza – jamais chegaremos a conhecer.

Confrontou-se com um paradoxo:

“Uma visão fulgurante! Ou um êxtase místico?!”

Apenas mais um dos nós do pensamento platônico… 

Contudo, não há nó impossível para um marinheiro.  De fato, há uma enorme variedade de nós conhecidos, dominados e desatados por um marinheiro.

Com a descoberta de um mundo novo e a possibilidade de explorar a vastidão dos mares, ao retornar à sua casa em Campinas, arrumou a mala e os ventos sopraram em direção ao Rio de Janeiro, onde morava sua irmã mais velha. Inscreveu-se na prova para a Escola Naval e foi aprovado. Sequer retornou ao Colégio Culto à Ciência para realizar sua última prova, dando início a uma nova vida – mais de 750 dias de mar; conheceu cerca de 100 cidades ao redor do mundo; mais de 40 anos de serviços prestados à Marinha do Brasil; 22 anos voltando para casa. 

Quase 80 anos compartilhando seus conhecimentos sobre os diversos lugares, povos, tradições e experiências ao redor do mundo e sempre lamentando a ausência de “seu brotinho”, “seu xodó”, “sua namorada, noiva e esposa”, Norma, aquela que era Comandante do seu Coração e a quem podia confiar seu maior tesouro – sua prole.  

 

“Assim, ele é forçado a retornar ao fundo da caverna e comunicar aos companheiros a sua descoberta, com a finalidade de livrar das ilusões os que estão acorrentados.”

 

Diferentemente do final da Alegoria, não mais “retornou à caverna”; entretanto, não deixou de “comunicar” aos seus contemporâneos e à sua descendência “as suas descobertas.” Muitas delas, embora não todas, registradas em cartas.   

A cada dia que escrevia começava repetindo o que ouvia de seu pai;

“-Até aqui nos ajudou o Senhor!”

Conhecia muito bem suas fraquezas, reconhecia seus defeitos, rogava a Deus misericórdia por seus pecados.

Recusou-se a fazer sua pública profissão de fé na mesma época em que sua irmã caçula, com a justificativa de que não gostaria de ser recebido como “um” no meio de um grupo de 50. Fazia questão de declarar sua fé e assumir um compromisso pessoal e individual perante a Igreja.

E assim o fez em 07 de maio de 1950, na Igreja de Riachuelo / RJ,

“Comprometendo-se, diante de Deus e de sua Igreja, a cumprir fiel e zelosamente os seguintes deveres cristãos:

a)   viver de acordo e a doutrina e prática da Escritura Sagrada;

b)    honrar e propagar o Evangelho pela palavra e conduta;

c)    sustentar a Igreja e suas Instituições, moral e financeiramente;

d)   obedecer às autoridades da Igreja Cristã Presbiteriana do Brasil (Const. Presb., arts 20 e 260).”

Naquela mesma igreja foi ordenado Diácono e serviu à comunidade; participou como contribuinte para a formação das Congregações de Saquarema e do Grajaú (atualmente, Igrejas Presbiterianas ligadas à IPB).

 

Na década de 70, em Brasília, no lançamento do disco “De Vento em Popa”, de um de seus sobrinhos, comentou:

 

“ – O título não poderia ser mais apropriado!

Viver uma vida com Cristo é como navegar de vento em popa.”

 

Enquanto servia em Belém do Pará (no início da década de 80), ingressou no grupo de profissionais liberais, sem fins lucrativos e não denominacional –  “Gideões Internacionais no Brasil” – cujo objetivo é distribuir Novos Testamentos em instituições educacionais, militares, de saúde e rede hoteleira.

De volta à cidade do Rio de Janeiro, permaneceu firme até o fim, cumprindo sua missão na saúde ou na doença.

Foi Conselheiro do Instituto Presbiteriano Álvaro Reis, no Rio de Janeiro/RJ.

Foi membro fundador da Igreja Presbiteriana do Grajaú, onde foi ordenado Presbítero e participou do último Culto a Deus no primeiro domingo de Fevereiro de 2006.

Dentre todas as funções que exerceu, considerava seu posto mais elevado o de Servo Voluntário do Senhor Jesus Cristo, para o qual jamais recusou qualquer função, inclusive a de cuidar e manter limpa e em ordem a casa de Deus, fazendo questão, de manter-se anônimo em suas contribuições financeiras a irmãos em dificuldade, missionários e instituições.  Rejeitava honras e homenagens como  recompensa por algum mérito próprio, declarando serem suas atividades não apenas obrigações mas, sobretudo, um privilégio que não merecia sozinho, pois sabia que havia sido conquistado com a participação da família: pais, irmãos, esposa, filhos, netos, amigos, colegas.  Nunca pela força, mas pelo esforço e pelo poder de Deus.

 

Combateu o bom combate, terminou a carreira, guardou a fé. 

 

Conforme seu desejo, foi atendido:

“- Os anos do homem sobre a Terra chegam a setenta;

em havendo vigor, a oitenta.

O que disso passar é enfado e canseira.”

 

E em 31 de julho de 2009, podemos todos em coro dizer:

 

“-Até hoje o Senhor tem derramado sobre nós

bênçãos sem medida.”

 

Lucia, Eduardo, Lilian, Fernando e Gilberto.

 

 

 

E, por isso afirmamos:

 

“-O que ouvimos e aprendemos,

o que nos contaram nossos pais

não esconderemos a nossos filhos.

Contaremos às vindouras gerações

do amor do nosso Deus,

do seu poder e

das maravilhas que fez.”

 

Cecilia & Rodrigo, Elisa;

Ana Luiza e Eduardo;

        Natasha, Isabela (in memoriam) e Bernardo

Maria Fernanda;

Isabella & Byron, Thomas

e Matheus.

 

(Com a colaboração de Lilian Hahn e Márcia Severino da Silva)               

ALVES, Rubem – “Conversas com quem gosta de ensinar: Sobre Jequitibás e Eucaliptos” –  PAPIRUS Editora, Campinas, 2005.

MEDEIROS, Sílvio – “FILOSOFIA É TAREFA DIFÍCIL: uma interpretação da “Alegoria da Caverna” de Platão – Campinas, outono de 2006.

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